Crítica – FENTEPP (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente) – por Sandra Parra

No quarto dia da mostra de Teatro Infantil do Fentepp, dia 01 de setembro, tivemos no teatro César Cava a apresentação de “O Pato, a Morte e a Tulipa, com a Cia. de Feitos, de São Paulo.
A peça, baseada no livro homônimo de Wolf Erlbruch, conta a história de um pato que se vê, certo dia, sendo seguido pela Morte; ele a chama para brincar e uma amizade se estabelece entre eles. A dramaturgia, bem construída, não se limita a apenas reproduzir o livro, e certamente não cai na tentação de transformá-la em uma narrativa moralista ou simplista. Segundo os atores, as cenas foram construídas a partir de improvisações; assim, brincadeiras de criança fazem não apenas número na encenação, mas constroem um chão firme que confere segurança e bom direcionamento à peça, e ao mesmo tempo agilidade e leveza.
O figurino, muito eficiente, também foge totalmente do cliché, indicando o Pato apenas por uma viseira que imita um bico, e caracterizando a Morte como um aviador, sempre no alto de uma escada – uma caracterização que lembra muito o que qualquer criança poderia fazer em casa, brincando de faz-de-conta. O cenário é esteticamente interessante, sem deixar de ser eficaz. Serve tanto aos recursos técnicos da encenação quanto à narrativa, ao ampliar o escopo e as possibilidades imagéticas que ela oferece, trabalhando principalmente com base em projeções e jogos de sombra feitos por trás de uma tela branca, estendida no meio do palco. E faz isso sem atrapalhar a evolução dos atores, que se adaptam e exploram bem o exíguo espaço que lhes sobra no palco.
Os atores apresentam bom preparo técnico tanto para lidar com a proposta estética quanto com o público em si. Ainda que algumas vezes eles possam parecer ter uma postura cênica um pouco solta demais, o próprio esquema de brincadeiras que eles se propõem como estrutura os obriga a estarem atentos e presentes. Assim, eles nunca perdem o domínio da narrativa ou da atenção do público, mesmo mesmo em uma sequência de cenas líricas ou silenciosas. Também o jogo entre a figura “ao vivo” dos atores e as sombras é muto dinâmico, e mantém a atenção da garotada presa ao palco todo o tempo.
Ao longo da peça, eles trazem uma série de jogos infantis em que a morte é nomeada de alguma forma, desde brincadeiras de rua como “lá em cima do piano tem um copo de veneno” e “vivomorto”, até a última novidade em vídeo-games. Eles evidenciam assim, com graça, mas ao mesmo tempo com seriedade, o quanto a morte está presente no imaginário infantil – e que negá-lo, ou tentar afastar as crianças disso não só as subestima como as priva de uma importantíssima parte de sua aprendizagem de viver no mundo.
Mas não é só de morte que trata a peça. Na adaptação da Cia. de Feitos, o pato são três: dois olham para a figura da Morte com estranheza e desconfiança, logo que ela chega; o terceiro, no entanto, faz questão de trazê-la para nadar no lago. Assim, além da discussão sobre o que é a morte, e como ela faz parte da vida, a peça se torna também uma metáfora sobre inclusão, aceitação, quebra de preconceitos. Independentemente do que se diz da Morte, o Pato olha para ela, vê como ela é: seu sorriso, seu jeito tranquilo, quase amigável, e decide então, por si mesmo, que é uma boa ideia ter ela por perto. Por que recusar a oportunidade de ter um amigo? A amizade faz a morte aproveitar a vida.
Mas o tempo passa, e o Pato morre. Simples assim, sem barulho nem histrionismos. A Morte o leva – quase triste… mas inexorável. É assim que as coisas são. Os atores contam que alguns pais e professores se ressentem da maneira direta e clara como o assunto da morte é tratado; os adultos parecem sentir uma certa necessidade de “proteger” seus filhos da possível crueza ou tristeza que esse tema possa trazer. Mas essa preocupação não encontra ressonância no público-alvo, que lida com o assunto da morte com a mesma clareza e simplicidade apresentada pelo grupo. Eles dizem que, eventualmente, são questionados por alguma criança: “por que o pato morre no final?” A resposta não pode ser outra, em consonância com a peça: “Porque sim. Porque é isso o que acontece com todo mundo; é natural.” Elas entendem a justeza da afirmação, a lógica que isso carrega. E não se preocupam mais. Crianças são seres de uma complexidade altamente coerente.
A peça não oferece respostas prontas, não se propõe a transformar em algo linear e consequente algo que é tão caótico quanto a própria vida em si – e é nesse sentido que eles apresentam a morte, não como o fim da vida, mas como parte dela. Nesse sentido, o grupo reconhece (com um sorriso…) que a peça possa ser perturbadora para os pais, pelas questões e reflexões que gera nas crianças – questões que, se tudo correr bem, elas poderão levar para casa, para a escola, para a vida, obrigando os adultos a olhar para elas, gerar respostas, entrar em diálogo. Ainda que não fosse apenas pela sua excelente qualidade artística, a peça “O Pato, a Morte e a Tulipa” é uma ótima contribuição para uma mostra de teatro infantil.

Sandra Parra.
Professora do Curso de Artes Cênicas da UEL, atriz e performer, bacharel em Comunicação das Artes do Corpo pela PUC-SP e Mestre em Artes pela UFMG. Foi crítica do FENTEPP 2011.

Serviço: “O Pato, a Morte e a Tulipa” – Cia de Feitos – São Paulo – SP. Apresentada na quartafeira, 01/09/2011, 10h e 14h,Teatro César Cava.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: